ZineConsciente #20

Por Fellipelli Consultoria Organizacional

O desejo maior de realizar ou alcançar algo retornou à voga no âmbito organizacional. De acordo com os principais especialistas da área, como o antropólogo e CEO da Consumoteca Michel Alcoforado, as novas gerações se destacam por trabalharem com aquilo que realmente gostam, fazer o que as move de fato, seguindo a máxima “dinheiro é consequência” (Instituto Millenium, 2019).

É bem verdade também que o ser humano sempre teve uma aptidão natural para solucionar problemas no seu cotidiano. Apesar disso, situações desafiadoras geralmente exigem esforços e trabalho pesado, além de altas doses de motivação. É necessário, portanto, contar com pessoas dispostas e persistentes para empreender grandes tarefas.

Mas o que leva alguém a resolver encarar um desafio, a lidar com incertezas e se engajar de fato em uma missão? Steve Jobs se dizia convencido de que “metade do que separa os empreendedores bem-sucedidos dos não bem-sucedidos é pura perseverança”.

Viver sem um propósito e metas bem definidas é deixar “a vida te levar”, ou seja, viver sem saber para onde se vai, ficando à mercê das circunstâncias e permitindo que elas ditem sua atitude, seu humor, seu ânimo e, consequentemente, seu futuro como um todo.

Diversos estudos recentes (ForbesBooks, 2019) apontam a existência de um segredo para guiar pessoas e equipes rumo a grandes feitos: chama-se propósito. Grandes descobertas tecnológicas e científicas, movimentos sociais e empresas de sucesso têm algo em comum: um propósito extremamente unificador, conhecido como Propósito Transformador Massivo (Massive Transformative Purpose) ou PTM.

A organização em prol de um Propósito Transformador Massivo é capaz de produzir dedicação, trabalho duro e desenvoltura ímpares, além de gerar maior satisfação com as tarefas realizadas. A seguir, vamos aprender qual é a composição básica de um PTM e como estabelecer um para sua empresa ou para si mesmo.

PTM e organizações exponenciais

O escritor russo Leon Tolstói (1828-1910), autor do clássico Guerra e Paz, sentia a falta de propósito em sua vida já aos 22 anos de idade, quando anotou em seu diário: “Estou vivendo como um animal”. Pouco mais tarde completou: “Tenho 24 anos de idade e ainda não fiz nada”. Assim como Tolstói, muitos buscam encontrar por anos, normalmente por tentativa e erro, o porquê ou propósito da vida.

Possuir um grande propósito significa saber aonde se deseja chegar, além de contar com a energia necessária para cumprir a trajetória, superando diversos obstáculos.

A identificação dessa real intenção ou Propósito Transformador Massivo exige que alguns questionamentos incômodos sejam feitos e respondidos:

  1. Há sentido em viver para trabalhar?

  2. Existe algum propósito para dedicar ao menos um terço do seu tempo de vida a atividades aparentemente sem sentido?

  3. Elas te trazem felicidade?

Viver com propósito é ter algo a entregar de fato. Trata-se de compreender o “porquê”, saber quais são os reais motivos das próprias ações. Sócrates já costumava dizer: “A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

No âmbito dos negócios, ter um propósito bem estabelecido facilita bastante a oferta de valor para o mercado, já que pessoas autoconscientes transmitem maior confiança em suas propostas (Marc Wayshak, 2019).

Uma recente pesquisa do GEM (Global Entrepreneurship Monitor) revelou que existem hoje no Brasil cerca de 27 milhões de indivíduos envolvidos em iniciativas empreendedoras. Essas pessoas geram mais de 60 milhões de vagas de emprego formais e informais, o que equivale a 75% da população economicamente ativa brasileira.

No entanto, infelizmente a grande maioria desses projetos carece de um Propósito Transformador Massivo para desenvolver um cenário estratégico claro. Sabe-se atualmente que as empresas que mais prosperam no mundo utilizam o PTM para nortear seu processo de tomada de decisões. Essa postura as torna organizações exponenciais, também conhecidas como ExOs (Exponential Organizations), ou seja, novas empresas que fazem negócios de modo diferente e por isso cresceram rapidamente em um curto período de tempo, deixando para trás concorrentes do mesmo ramo econômico.

A ideia de organizações exponenciais surgiu em 2014 na Singularity University, a universidade de futurismo da NASA (ExO Works, 2019). Recentemente, esse conceito foi explorado e difundido na obra “Organizações Exponenciais: Por que elas são 10 vezes melhores, mais rápidas e mais baratas que a sua (e o que fazer a respeito)”, de Salim Ismail, Yuri Van Geest e Michael Malone (Ismail et al., 2019).

As ExOs se sobressaem por seus resultados e impacto no mercado. As empresas tradicionais, marcadas por transformações lentas e expansão linear, estão cada vez mais pressionadas por iniciativas disruptivas, como Airbnb e Uber. Essa capacidade inovadora, por sua vez, se refere à utilização de técnicas organizacionais de alavancagem de tecnologias aceleradas. A principal delas é exatamente o Propósito Transformador Massivo, a grande inspiração por trás de todas as pequenas e grandes ações de uma organização exponencial.

Além do PTM, toda ExO apresenta também outros dez atributos: 5 elementos de criatividade, chamados pelo acrônimo das iniciais em inglês SCALE, e 5 elementos de controle, reconhecidos pelo acrônimo das iniciais em inglês IDEAS.

PTM e organizações exponenciais

A explicação acima é de Salim Ismail, fundador e diretor executivo da Singularity University. Segundo Ismail, organizações exponenciais possuem um PTM e mais dez critérios comuns de crescimento. Empresas de enorme sucesso, como Uber, Netflix e Google, detêm em média cinco desses atributos.

Esses aspectos das organizações exponenciais revelam os mecanismos internos e externos empregados na gestão organizacional. A sigla SCALE representa cinco características externas ou de captura de abundância:

  • Staff sob demanda (Staff on demand):

 

Organizações de rápido crescimento necessitam de grandes doses de flexibilidade e dinamismo em suas operações, por isso devem contar com uma força de trabalho externa sob demanda e por projeto, em vez de funcionários contratados.

A manutenção de equipes permanentes vem se tornando uma prática cada vez mais ultrapassada com o surgimento de novos mecanismos de gestão de tarefas, capazes de elevar a produtividade geral e agregar mais qualidade e valor ao que é oferecido pela empresa.

  • Comunidade e multidão (Community & Crowd):

 

O desenvolvimento de qualquer organização exponencial depende da sua capacidade de criar interações produtivas com a comunidade. O conceito de comunidade aqui engloba não apenas usuários, fornecedores e parceiros, mas também todos os demais públicos – a multidão. Essa habilidade de formar laços com a comunidade e a multidão é extremamente benéfica para fidelizar o público e promover o crescimento empresarial, além de facilitar a validação de ideias e o lançamento de novos produtos.

  • Algoritmos (Algorithms):

 

Algoritmos correspondem ao chamado Big Data . Organizações exponenciais fundamentam todas as suas ações e estratégias em dados e isso gera uma grande vantagem competitiva em relação às empresas que ainda se baseiam em suposições.

O Google é o maior exemplo de utilização eficiente de big data; nele, qualquer atividade corriqueira de um usuário é submetida a um amplo processo de análise de dados e geração de algoritmos.

  • Ativos alavancados (Leveraged Assets):

 

Antigamente, possuir uma grande empresa exigia pesados investimentos financeiros em instalações, máquinas, equipamentos e funcionários. Hoje em dia, porém, basta saber usar recursos baratos e até mesmo gratuitos disponíveis no mercado.

O Waze, aplicativo de tráfego e navegação por GPS, é um dos maiores exemplos de emprego inteligente desses mecanismos. Ele fornece condições do trânsito em tempo real através da localização de cada usuário, o que indica a velocidade média em cada lugar de modo instantâneo. O app também permite que os motoristas reportem bloqueios na estrada, radares, acidentes e outros imprevistos ao longo do trajeto.

Assim, ao utilizar os smartphones de seus próprios usuários para obter imagens e dados do trânsito, a plataforma Waze rapidamente assumiu a liderança do setor de controle de tráfego urbano, desbancando rivais que investiram muito mais na aquisição e instalação de sensores físicos nas rodovias.

  • Engajamento (Engagement):

 

Embora cupons, bônus, sorteios e concursos sejam artifícios aproveitados há muitos anos para atrair o público, as organizações exponenciais intensificam sua utilização por meio de ferramentas de gamificação para fidelizá-lo. Esses métodos também são muito empregados pelas ExOs para converter rapidamente pessoas da “multidão” para a “comunidade”.

Enquanto os itens staff sob demanda, comunidade e multidão, algoritmos, ativos alavancados e engajamento compõem as características externas das organizações, os atributos internos, também conhecidos pelo acrônimo IDEAS, são os seguintes:

  • Interfaces:

 

Toda organização exponencial se dedica à elaboração de processos e elementos de interface próprios para facilitar a gestão de seus negócios. A Apple, por exemplo, conta com a indispensável contribuição de seus desenvolvedores de aplicativos para fortalecer sua comunidade, enquanto o AirBnb aperfeiçoa continuamente sua plataforma de anúncios de oferta e demanda no setor de hospedagem e experiências de viagens.

  • Dashboards:

 

Tão importante quanto o acelerado crescimento dos negócios de uma empresa é o controle eficiente dos seus processos. As ExOs sabem disso e mantêm um rígido monitoramento dos principais dados e indicadores organizacionais, ajustando a rota e adaptando seus serviços e produtos rapidamente conforme as exigências do mercado. Para isso, é essencial a leitura e a interpretação adequada dos sinais emitidos pelos consumidores, assim como a ágil tomada de decisões.

Nas organizações exponenciais, os períodos de acompanhamento e feedback são breves, durando aproximadamente 3 meses contra 1 ano do ciclo da maioria das outras empresas.

  • Experimentação (Experimentation):

 

Tradicionalmente, os produtos de uma empresa são testados por seus consumidores apenas nas últimas etapas de seu desenvolvimento. Essa prática faz com que qualquer feedback importante seja obtido tarde demais, inviabilizando modificações rápidas e elevando os custos dessas alterações.

As ExOs também atuam de modo diferente nesse sentido, colocando no mercado produtos ainda em fase embrionária e aprimorando-os conforme as demandas e sugestões dos clientes. Dessa forma, elas conseguem agilizar a entrega de uma mercadoria de melhor qualidade, além de garantir uma economia significativa de recursos no processo de fabricação.

  • Autonomia (Autonomy):

 

Na gestão horizontal, a empresa apresenta uma estrutura sem valorização das relações de poder. Trata-se de uma forma mais participativa, oposta à hierarquização dos postos de trabalho e com todas as responsabilidades divididas entre os membros da equipe.

Bastante comum entre as ExOs, esse modelo de gestão parte do princípio de que os funcionários são mais produtivos quando atuam diretamente no processo decisório do que quando são supervisionados por chefes autoritários.

As empresas podem implementar diferentes níveis de horizontalidade de acordo com o grau de hierarquia que pretendem eliminar em suas atividades. Muitas startups adotam esse método enquanto seus processos internos ainda não estão bem delimitados, beneficiando-se da flexibilidade e do foco na atuação pessoal proporcionados por ele.

  • Tecnologias Sociais (Social Technonologies):

 

O intenso uso das redes sociais por empresas é uma tendência inexorável do século XXI. As organizações exponenciais, porém, buscam interagir de forma inteligente com seu público através desses agrupamentos de interesses mútuos.

Atualmente 80% dos brasileiros que têm acesso à Internet também utilizam algum tipo de rede social (IBGE, 2018).

As ExOs não se limitam a criar perfis nas redes mais comuns e esperar resultados, elas têm objetivos claros nesses ambientes e alimentam a própria rede continuamente com novos conteúdos.

Através do perfil empresarial, as organizações exponenciais se movimentam, encontram pessoas, interagem com elas e descobrem o que elas gostam ou não em seus serviços. Com o auxílio das redes, as ExOs também expõem melhor seu trabalho, além de responder mais eficientemente as dúvidas de seus clientes.

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